Terça-feira, 26 de Setembro de 2006

A outra...

Sento-me. Está uma noite de chuva horrível, mas as circunstâncias da vida obrigam-me a sair de casa, nestas noites em que só me apetece enrolar-me num cobertor fofo no meu sofá de sempre que se habitou aos moldes do meu corpo.

Mas saio contra a vontade. Entro no café de sempre e sento-me. Atende-me o empregado, também de sempre, que me conhece já há alguns anos. Olha para mim e sorri. Tem cara de ser feliz... Pelo menos leva a vida com um sorriso nos lábios. Olho para ele e penso que é pena ser casado, senão até pensaria em algumas aventuras…

Peço o de sempre, como de costume, um carioca de limão. À noite apetece-me sempre qualquer coisa parecida a chá. Acho que velhos hábitos não se perdem nunca. Além disso tenho de me desabituar da cafeína, faz mal à celulite!

E enquanto espero dou de caras contigo. Tens os olhos pretos mais bonitos que já vi. Tens os olhos de tigre que procuro em todos os homens que encontro. Sonhei que o pai dos meus filhos terá uns olhos assim.

Sinto-me nervosa. Olho lá para fora, para a chuva que se esborracha no vidro da janela do café de sempre. De repente, vejo um trovão que ilumina a escuridão da noite e no reflexo do vidro vejo os teus olhos a olharem para mim. Muito timidamente sorris.

Chega o empregado, que me conhece tão bem que até sabe onde moro, e entrega-me o carioca. Nem tu imaginas com quem me habituei a beber isto quando ainda nem sonhava que tu poderias existir. Velhos hábitos…

Olho para chávena e não resisto a levantar os olhos para te ver mais uma vez. Continuas a olhar para mim. Sinto-me incomodada por ela estar ao teu lado e tu mesmo assim olhares para mim.

De repente penso que estás a olhar na minha direcção mas não necessariamente para mim. E lentamente viro-me para trás para ver o que pode estar a captar a tua atenção. Mas não há nada. Tal como previa afinal o olhar é mesmo para mim.

Quando me viro novamente estás tu a sorrir da minha estupidez. Como quem diz que não, não me enganei. Ela dá conta e faz cara de amuada. Tu falas-lhe e voltas a olhar-me. Desta vez como se me despisses mentalmente e imaginasses todas as curvas e contracurvas que o meu corpo esconde debaixo destes casacos todos de Inverno. Ela deve-se ter apercebido porque olha para ti e começa a refilar.

Não consigo perceber a vossa conversa. O som do rádio, de sempre e sempre sintonizado na minha frequência preferida, não em deixa perceber as palavras que vocês trocam. De repente ela agarra-te e beija-te. Como se quisesse dizer-me que quem está contigo é ela e não eu. Finjo que não reparo e concentro-me na difícil tarefa de despejar o pacote de açúcar sem o deixar cair todo na mesa.

Retribuis o beijo e voltas a olhar para mim, como que a pedir desculpa de uma coisa que devias ter prazer e não obrigação em fazer. Mexo o carioca para derreter o açúcar e penso que prefiro ser a outra na tua vida.

Desta vez olho para ti descaradamente e reparo na barba que te fica tão bem. Dá-te um charme que não terias se não tivesses barba. Fixo-te e noto que gosto do jogo de olhares. Fixas-me também. Quando já não aguentas, porque a imaginação é fértil e o corpo não é de ferro, olhas para ela e beija-la novamente.

Aproveito para tirar um cigarro. Não hesitas e reparas na forma como os meus dedos mexem e o isqueiro parece veludo nas minhas mãos. Olho-te novamente, não me apetece perder esse olhar que me faz sentir bem. Faz-me sentir mulher. Tu fazes-me sentir mulher.

Reparo que agora também ela está a olhar para mim. A avaliar-me, a julgar-me. A pensar porque raio olhas para mim e não para ela. Não me importo, gosto do teu olhar fixo em mim. Preso em mim. É como se eu fosse a dona de tudo o que te pertence.

Porque simplesmente eu sou a outra...

 

Sinto-me: desejada
A ouvir: The Veils - The Leavers Dance

Soprado por: Asa às 00:20
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5 comentários:
De Houdinni a 26 de Setembro de 2006 às 11:58
Nem de propósito andava a discutir tema semelhante num fórum.
Mas o conto está muito muito bonito. Gostei sim senhora! :D


De Asa a 26 de Setembro de 2006 às 12:22
Quem disse que era um conto? ...
:p
Obrigada pelo elogio!


De 1/2Kg de Broa a 26 de Setembro de 2006 às 22:58
Não tens vergonha? Hum? Não tens vergonha de seres lambona e quereres os jovenzinhos todos para ti? :D
Vai pra cima dele! Pode ser que resulte... e assim não conta para as estatísticas dos divórcios..

"Além disso tenho de me desabituar da cafeína, faz mal à celulite!" - Então se faz mal à celulite toma mais cafés! assim não há celulite que resita ;)


De Asa a 27 de Setembro de 2006 às 01:01
Quem te disse que são jovenzinhos? Não! Não tenho vergonha nenhuma. Quando os dois querem o problema é da terceira pessoa, não meu.
Mas não há nehum ele, apenas a miragem do que poderia ter sido.
Quem te disse que era algo mais do que um conto?


De 1/2Kg de Broa a 27 de Setembro de 2006 às 21:33
Ai é? Então quem disse que eu não estava a brincar? ;)
Mas se for verdade o comentário é o mesmo


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