Quinta-feira, 19 de Outubro de 2006

Aquele que nunca viveu...

 

Sentou-se no vazio das horas que iam passando nessa medida infindável em que se tornou o tempo. Olhava os dias como um pobre pedinte faminto olha as horas que passam até poder obter uma nova refeição que lhe aqueça o corpo e lhe aconchegue a alma. Sentada a seu lado, parecia o seu cão, também vadio que espera os ossos e as sobras e com isso se contenta.

Via a vida a passar pelos laços invisíveis do olhar, sem mostrar o mínimo de preocupação com o que se seguiria nessa sua vida triste de abandono à solidão. Temia a vida mais do que a morte e ria das preocupações dos outros consigo próprios, enquanto bebia da garrafa onde acumulava a sua sorte.

Via a vida com a cor indefinida que sempre o caracterizou. Deixou este mundo e os outros sem rasto. A sua cor confundiu-se com a cor dos dias que passaram depois de também ele passar sem marcar o mundo.

Um dia morreu. Num dia de chuva igual a todos os outros dias de chuva que naquele Inverno abundaram, riu pela última vez enquanto se encostava à sua única amiga garrafa, companheira que o acompanhou até ao fim. Não se despediu de ninguém, não se despediu de si próprio, não se despediu da vida. Simplesmente se foi, evaporou-se no espaço cósmico de uma galáxia poeirenta que sempre abominou.

Ria dos dias, das noites e de todos. Achou-se um mestre e acabou um discípulo sem nunca compreender a mestria dos verdadeiros, que sendo mestres nunca se deram ao trabalho de lha explicar.

 Morreu como todos os outros que morrem sem nunca terem de facto existido. Evaporou-se num fumo cinzento indefinido. Caiu por terra num esgar característico que lhe atormentou a alma que dizia não possuir por não acreditar nela. Num esgar cínico, com a mesma hipocrisia com viveu a sua vida a partir do momento em que a matou.

Abandonou-se à foice da morte, que veio vestida de cinzento para melhor se confundir com ele próprio e a sua cor, ou a falta dela. Não ripostou e o seu cinismo foi o seu golpe fatal.

Simplesmente morreu aquele que nunca viveu.

 

Sinto-me: negra
A ouvir: Snow Patrol - Chasing Cars

Soprado por: Asa às 00:43
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1 comentário:
De Vidinha a 19 de Outubro de 2006 às 21:40
Muito bem escrito.Apreciei bastante este texto inspirado na vida de outra existência. Tocou-me e sensibilizou-me as `vidas cinzentas que por nós passam todos os dias.
Pede-se mais destes!


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