Sexta-feira, 17 de Novembro de 2006

Depósitos...

 

Como de costume, tenho pensado bastante sobre este tema, antes de me atrever a dar uma opinião sobre o assunto.

Podem pensar que é sobre incineração ou co-incineração, lixeiras ou coisas que tais, mas não andam longe da verdade. O tema são os depósitos, não de dinheiro mas de pessoas.

Na sociedade moderna em que vivemos, resolvemos criar depósitos para aqueles que não cabem nas nossas vidas. Podiam ser depósitos de memória, para aqueles que não têm espaço pudessem ficar armazenados e pudéssemos recordá-los quando sentíssemos saudades. Mas não. Criamos depósitos de pessoas reais, locais onde as depositamos quando estamos fartos de as aturar.

Criamos lares de idosos, hospitais psiquiátricos, centros de dia, ATL’s, jardins-de-infância, colégios internos, tutorias, centros de reabilitação, prisões e sei lá que mais…

Criamos sítios, onde depositamos as pessoas que não nos interessa manter na nossa vida. Não importa se são nossos pais, filhos, amigos, familiares, esposas, maridos ou irmãos. O que importa mesmo é que não as queremos nas nossas vidas e por isso, estamos dispostos a pagar um preço, por vezes bastante elevado, para que completos desconhecidos os mantenham vivos enquanto a chama da vida os mantiver.

Não sou contra a existência de alguns desses sítios. Não sou contra o facto de algumas pessoas não terem qualquer hipótese de poderem auxiliar essa outra. Não sou contra os empregos que se mantêm. Não sou contra o pagamento dos actos e o conceito de justiça. Sou é contra fazermos disso uma rotina habitual.

Custa-me ver pessoas idosas que sempre amaram os filhos despejadas nos depósitos de idosos. Custa-me ver crianças de um ou dois anos despejadas em depósitos infantis até que os pais acabem a sua vida social e se lembrem que eles estão lá. Custa-me ver pessoas deprimidas despejadas em depósitos psiquiátricos sem o apoio mais necessário. Custa-me ver pessoas diferentes despejadas em depósitos de deficientes, como se fosse um mal a esconder. Custa-me ver crianças com inúmeros problemas de vida e de adaptação social despejadas em depósitos de delinquentes, sem que alguém se interesse pela sua natureza de ser humano. Custa-me ver pessoas desepejadas nos depósitos de criminosos, sem que alguém tente perceber o que aconteceu e quais as hipóteses de recuperarem uma vida normal.

Custa-me viver nesta sociedade que teima em criar depósitos para aqueles que sofrem de algo diferente. Para aqueles que não quiseram ou não souberam adaptar-se à condição de normal que a sociedade lhes impôs.

Fazemos dos depósitos uma forma alternativa de vida, sem as mínimas condições de alguma vez o poderem ser. Fazemos destes depósitos um armazém daquilo que não nos interessa ter na nossa vida. Criamos depósitos de pessoas...

 

Sinto-me: revoltada
A ouvir: Mega FM

Soprado por: Asa às 15:19
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6 comentários:
De dinis ponteira a 19 de Novembro de 2006 às 13:49
É bom votar a ver umas fotos BW. Parabéns


De semsonocomosempre a 19 de Novembro de 2006 às 14:17
É muito complicado falar no geral deste tema, mas que custa ver tudo isso, ai custa!


De Asa a 19 de Novembro de 2006 às 19:44
Eu sei que é, mas vale apenas como desbafo. Como um grito no silêncio da (a)normalidade que se instalou, sem que ninguém se aperceba.
Só isso...


De Anónimo a 20 de Novembro de 2006 às 12:20
Olá Asa,

Eu, infelizmente, conheci parcialmente a realidade do tema que abordaste..., o primeiro contacto é terrível, quando sais de lá parece que levaste uma sova...,

mas...

tal como tudo na vida, nada tem um valor absoluto, as coisas não são por si boas ou más, feias ou belas...

Existem sim, como referiste depósitos de pessoas, mas tb existem lugares onde pessoas de idade podem passar o resto dos seus dias num ambiente mais agradável, em companhias de outras pessoas, com a mesma idade e problemas similares..., tudo depende de nós...,

nós como pessoas responsáveis destes lugares, nós como colaboradores destes lugares, nós como familiares de pessoas que colocamos nestes lugares...

Conheci pessoas extraordinárias, em qualquer um daqueles papeis, verdadeiros seres humanos, cheios de amor, compaixão, dedicação, por outros seres humanos, muitas vezes totalmente sózinhos no mundo...

à medida que vais conhecendo melhor um daqueles lugares, vais reparando nos pequenos belos pormenores, nas pequenas coisas boas...,

This world is full of darkness..., but I try to see, the bits of beauty that exist every where...,

W.


De marta a 26 de Novembro de 2006 às 12:16
Ola,boa tarde!Queria apenas deixar aqui um endereço,relativo a peças artesanais de bijuteria/decoraçao/acessorios,acho que nao faz mal dar uma olhada:)
obrigada,
marta


De inimaginavel a 27 de Novembro de 2006 às 17:23
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