Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2006

Esquecimento

A minha vida é uma animação! Tudo isto porque as minhas viagens de autocarro, principalmente no 3 no 4, tendem a ser bastante produtivas. Isto no que se refere a assuntos e dissertações para este blog.

Passo a explicar… Vinha eu descansadamente no 3, a caminho de casa, depois de ter ido comprar comida para o fim-de-semana. Ah! Esqueci-me de explicar que enquanto escrevo este “post” é sexta-feira à noite e resolvi ficar por Coimbra. E como tal, vou barricar-me na minha casa o fim-de-semana inteirinho. Por isso, fui comprar o essencial para não ter que sair de casa durante todo o fim-de-semana. É! Ás vezes dão-me estas coisas de Eremita.

Voltando à dita viagem, vinha eu no 3 a caminho da casa e a meio da viagem salta uma cena qualquer ao autocarro, que mais tarde vim a perceber que era qualquer coisa de ferro, não sei bem. Para o caso também não é relevante. O que sucedeu foi que essa peça de ferro fez um barulho brutal ao cair e o sr. motorista nem reparou e seguiu viagem. Contudo, uma sra. resolve avisá-lo em grandes brados que tinha caído qualquer coisa. Posto isto, o motorista lá estaciona o veículo no meio da estrada e vai ver o que era. Agarra na peça de metal, dá a sua corridinha e volta a entrar no autocarro.

Não é nenhuma história surreal, nem tem nada de mais, não fosse o facto de me ter deixado a pensar na velocidade das coisas e na velocidade da vida. Isso aliado ao facto de supostamente ter um casamento daqui a um ano. Ou seja, foi mais um episódio que me fez reflectir no modo como todos andamos a viver a vida. À pressa!

Parece que a cada dia que passa conseguimos atingir velocidades ainda maiores. É como se todos os dias treinássemos para conseguirmos ser mais rápidos e demorarmos menos tempo a fazer as coisas. O que me lembra uma coisa giríssima que via na net hoje em casa da M. Era um site com alguns filmes em apenas 30 segundos, especialmente dirigido a pessoas que não têm tempo devido a exames ou trabalhos. Tinha cerca de 5/6 filmes em apenas 30 seg. cada um. A título de exemplo, o Titanic, em 30 seg. com as principais cenas, tudo isto representado por coelhinhos.

Devo fazer jus ao engenho, que até era bastante engraçado e serve para divertir alguém durante 30 seg. Mas leva-me ao meu ponto de partida. Cada vez corremos mais, para fazermos tudo no mínimo de tempo possível. E alguns chegam mesmo a competir para ver quem trabalha mais em menos tempo.

O que me leva a uma conversa filosófica de café, que teve lugar ontem. Dizia o P. que dormir é um desperdício de tempo, que o podíamos aproveitar para fazer coisas mais úteis e produtivas (qualquer coisa nesta linha, não consigo reproduzir fielmente devido à minha gripe) ao que a R. lhe respondia que se não tivéssemos que dormir viveríamos numa sociedade em que trabalharíamos cada vez mais e mais.

O que eu me pergunto é se não vivemos numa sociedade em que cada vez dormimos menos porque temos que trabalhar mais? Eu sei que sou suspeita, isto porque a minha média ideal de horas de sono é de: 10 horas! Sim, abusivo mas necessário. Como diria o P. passo quase metade da minha vida a dormir…

Toda esta dissertação me lembra um fantástico filme que vi já há alguns anos e tinha uma frase que se aplica na perfeição e que era “Run Forrest, run!”. Parece que vivemos para correr. Qualquer dia estamos todos na alta competição atlética e nem nos vamos dar conta disso, porque a pressa é tanta que nem nos permite apercebermo-nos desse “insignificante” pormenor.

Ás vezes dou por mim a pensar no que gastei a minhas horas desse dia e nem me lembro, porque fiz tanta coisa que nem consegui registar o que era importante e o que era dispensável. Tenho pena daqueles que não olham ao redor e não têm a capacidade para ver a importância desse gesto tão insignificante que é apenas olhar. Sinto-me triste por ver que cada vez mais não “perdemos tempo”. Quantas vezes não terás já ouvido essa expressão na tua vida? Também é frequente eu ouvir coisas como “Eh pá, não posso, não tenho tempo” ou então “Não tenho tempo a perder” ou ainda “Estou demasiado ocupado/a”.

Eu até percebo que não podemos ter tempo p’ra tudo o que queremos ou que nos pedem. Mas o que me preocupa é que vamos chegar a uma fase da vida em que vamos dizer coisas do género “Desperdicei o melhor tempo da minha vida” ou “Devia ter feito isto e aquilo” ou pior “Tenho que arranjar tempo para…”.

E se calhar quando esse “tempo” chegar já vai ser tarde para…

Preocupa-me que cada um de nós viva em eterno stress por causa do tempo. Quantos de nós já pararam para ver a imagem da lua reflectida na água? Ou um pôr-do-sol no mar? Tudo bem que são exemplos românticos a roçar a lamechice, mas talvez um dia não possamos fazer isso, e esse seja o nosso desejo mais ardente.

Vou dar um exemplo. Eu vivo na mesma cidade do Norte há cerca de 18 anos (mais coisa, menos coisa!) e só há cerca de 1 mês (reparem bem 1 mês!) é que reparei que estando por cima da ponte mais antiga da cidade, se vêem dois anjos de pedra por cima da cúpula da igreja que fica ali próxima. E no outro dia ao passar lá de carro com a J. perguntei-lhe se ela já tinha visto e ela muito naturalmente disse que NÃO! O que até é natural, mas não devia ser. Afinal de contas ela nasceu lá, o que faz com que ela viva lá há cerca de 22 anos. E ela ainda NÃO tinha reparado.

Isto choca-me! Cada vez mais temos menos tempo p’ra tudo. Dedicamos a maior parte da nossa vida a trabalhar, para podermos adquirir coisas que até nem nos vão fazer falta. É claro que precisamos de dinheiro para vivermos na sociedade em que estamos inseridos, mas estamos a atingir o ponto em que temos te quer mais dinheiro que todos os que conhecemos, porque assim vamos mostrar-lhes o quão bem sucedidos e felizes nós somos. O que é uma mentira pegada, mas nós esforçamo-nos, e até perdemos algum tempo, para nos convencermos disso. Mas só perdemos tempo p’ra isso.

E nesta correria louca esquecemo-nos de rir e de chorar. Esquecemo-nos de ir tomar café com alguns amigos que não vemos há algum tempo; esquecemo-nos dos aniversários das pessoas; esquecemo-nos de olhar para o céu, de ouvirmos a chuva a cair lá fora; esquecemo-nos de ir aos casamentos e baptizados daqueles que nos convidam; esquecemo-nos de olhar para a cidade em que vivemos; esquecemo-nos de tirar férias; esquecemo-nos de acender a lareira; esquecemo-nos de sentir a água quente a relaxar os nossos músculos; esquecemo-nos de mimar aqueles que amamos e de amar aqueles que mimamos.

Esquecemo-nos de viver, e o pior de tudo, esquecemo-nos de nós próprios.


Soprado por: Asa às 15:14
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