Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2006

Alguém e a velhice

Este “post” é bastante diferente, embora isso seja impossível, porque quem o escreve sou eu e como tal o estilo de escrita é o mesmo, por isso, afinal até é bastante semelhante. Contudo, é sobre uma pessoa bastante distante de mim e isso faz dele um “post” singular.

Hoje depois de uma atribulada viagem de autocarro, que já descrevo, vinha para casa e de repente lembrei-me de um amigo distante, o Ghzim. Não, não é um boneco, nem alguém fruto da minha imaginação. O nome dele é mesmo este, porque ele é albanês. Sim, há um país chamado Albânia, que fica na Europa e que faz fronteira com a Grécia, a Macedónia e o Kosovo. É um país profundamente marcado pela infelizmente “famosa” guerra do Kosovo, a chamada limpeza étnica que os sérvios levaram a cabo contra os albaneses, ou se preferirem a guerra do pássaro negro, tradução para a palavra Kosovo.

E foi por causa dessa dita “limpeza”, que eu conheci o Ghzim. Afinal, nem tudo é completamente bom, nem completamente mau.

Ma antes de continuar a dissertar, vou contar a minha viagem de autocarro. Entro eu calmamente no 4, que por sinal, era alusivo ao Miguel Torga e é um eléctrico bastante bonito, e sento-me calmamente, à espera da minha paragem. Quando a meio do caminho o dito eléctrico começa a asniar, ou em português corrente, a avariar. Quando começava a arrancar, soluçava que se fartava e não se mexia do sítio. Isto de conduzir e andar de eléctricos tem muito que se lhe diga! Por fim, o sr. motorista lá consegue fazer avançar o 4 e seguimos aos soluços continuamente. A pior parte acontece quando, a meio do meu percurso, uma sra. lhe diz que quer sair, mas o sr. motorista acha que ainda falta para a paragem e não a deixa sair. Entretanto, o autocarro começa outra vez a soluçar forte e feio, a ponto de eu sentir o meu estômago a subir à garganta, e não estou a brincar. A sra. desequilibra-se e quase cai à conta dos ditos soluços, até que por fim, lá chega próximo da paragem e o autocarro pára, não sem antes o sr. motorista ter dito à sra. (que era bastante idosa, esqueci-me de referir) que teria da sair pela porta de trás e não pela da frente, o que seria muito mais prático.

Claro que esta história não é nada de anormal e já se deve ter repetido dezenas de vezes, senão centenas, nesta cidade. Imagino que em Lisboa ou no Porto ainda seja pior, mas a mim incomodou-me. Incomodou-me porque sinto que vivemos numa sociedade profundamente ocidentalizada, em que os velhos ou idosos, como preferirem, são profundamente mal tratados e desprezados. Vivemos numa sociedade em que não valorizamos as histórias de vida, nem as experiências dos que já viveram. Vivemos numa sociedade em que o próprio conceito de “velho” é visto como pejorativo. Ser velho é ser um fardo. E ao designarmos tais pessoas por “idosas”, parece que estamos a fazer um favor por não as tratarmos por velhas. Mas depois fazemos pior e tratamo-las como algo que já não nos faz falta, é mais um empecilho que temos que aturar e suportar.

Será possível que não consigamos ver os anos de vida e experiência que elas acumularam? Será possível que não consigamos respeitar tudo o que elas já viveram? Que não consigamos reconhecer o seu valor? Que não consigamos agradecer-lhes por terem ajudado a construir esta sociedade, este país, no fim de contas a nossa nação?

Irrita-me que não haja respeito pela idade, afinal de contas “a antiguidade é um posto”. É como se agora um/a caloiro/a chegasse ao pé de mim e me considerasse um fardo que teria de suportar a conviver na mesma faculdade. Porque será que só respeitamos até certa idade e de certa maneira?

Neste aspecto não posso deixar de admirar o oriente e as sociedades orientais, em que os mais velhos são motivo de orgulho. Sociedades em que há um profundo respeito pelos anos de sabedoria que estes acumularam. Também sei que isto se passa em algumas tribos selvagens de certos países, para mim desconhecidos; em que o mais velho é o chefe da tribo ou o sábio. Qual será o problema com o conceito de ancião?

Mas não era nada disto que eu tinha planeado escrever hoje. Tudo porque a meio do curto trajecto a pé até minha casa me lembrei do meu amigo Ghzim. Esse ser humano fantástico que tinha mil histórias de vida para contar e ainda mais receitas de culinária fantásticas para me ensinar. Nunca me vou esquecer que foi ele que me ensinou o truque do Spaghetti alla Carbonara ou alla Bolognese.

O Ghzim emigrou para Itália muito novo, tinha perdido o pai na guerra do Kosovo e vivia com a mãe e a irmã. Mas na Albânia ele não tinha condições financeiras para continuar a estudar e no período do pós-guerra em que se vivia, era difícil arranjar um trabalho. Assim, Itália pareceu-lhe um bom destino. Começou por ir até Florença, mas como era uma cidade muito cara para se viver, foi descendo ao longo do país, já que à medida que nos aproximamos de África o nível de vida vai diminuindo. Até que por fim chegou à Sícilia e por lá, acabou mesmo por ficar por Palermo, sítio onde nos conhecemos.

Estudava Direito na Facolttá di Jurisprudenzia della Universitá di Palermo. Trabalhava de noite e aos fins-de-semana num restaurante da cidade. Ironia ou não, era um albanês a cozinhar comida italiana e de boa qualidade!

Este era o meu amigo Ghzim, alguém profundamente marcado pela guerra, que vivia num país que não era o seu, mas que se considerava siciliano e não italiano. Alguém que demorou 10 minutos a fazer-me pronunciar o seu nome correctamente; alguém que teve que me mostrar o seu BI para que eu percebesse, mal e porcamente diga-se, o seu nome. Alguém que me ajudou a falar um pouco melhor italiano, que me ensinou os truques da dita cozinha desse país; alguém que meabriu o seu álbum de memórias e me explicou uma guerra que nunca ninguém percebeu. Alguém que teve paciência para me ensinar a conjugar verbos estranhos em tempos ainda mais esquisitos que não lembram a ninguém; alguém que usava um chapéu de crochet na cabeça para não ser atacado pela Máfia siciliana; alguém que adoptou outro país como Pátria-Mãe; alguém que compartilhou comigo desse sentimento tão português que é a Saudade.

Alguém que me ensinou que a vida é curta, mas maravilhosa e que viver noutro país não é tão mau como parece. Alguém que dormia 2 ou 3 horas por noite para poder sustentar-se e poder tirar um curso; alguém que tinha o sonho de voltar para o seu país e exercer uma profissão que impusesse alguma justiça por lá; alguém que me desejou Bom Natal no ano de 2003; alguém que tinha um tom de pele muito diferente do meu e nem por isso era menos digno que eu. Alguém que partilhou comigo garrafas de vido, saudades dos pais, lágrimas de cortar cebola, sorrisos de bebedeiras, jogos de cartas, conversas meio em italiano, meio em português, meio em inglês e meio em espanhol; alguém que me abraçou em alguns momentos de verdadeira tristeza. E principalmente alguém que me lembrou que eu era muito jovem para desistir fosse do que fosse e que a coragem é algo de maravilhoso e intrínseco à minha personalidade.

Por tudo isso, resolvi homenagear o meu amigo Ghzim. Mesmo sabendo que só por milagre ele o vai saber. Mesmo assim, e por alguns dos momentos mais fantásticos da minha vida, obrigada Ghzim.


Soprado por: Asa às 11:02
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1 comentário:
De Anónimo a 3 de Fevereiro de 2006 às 16:54
Estou certa que o teu amigo Ghzim sabe que o tempo que passou contigo foi um tempo abençoado.
Gosto do que escreves. Voltarei mais vezes.
Um beijinho.Eunice Marujo
(http://burrodoaranha.blogs.sapo.pt)
(mailto:eunice.marujo@sapo.pt)


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