Sexta-feira, 21 de Abril de 2006

Esqueletos no armário

 

 

Não sei o que escrever… Não sei sequer sobre o que escrever... Apenas sei que me apetece escrever sobre qualquer coisa, mesmo não sabendo bem o quê ou sobre o quê.

Vou escrever em primeiro lugar sobre esqueletos. Sim, esqueletos. Daqueles que todos temos nos nossos armários da memória. Aqueles assuntos estranhos e esquisitos que nunca falamos. Aquelas pessoas e sentimentos incómodos que não queremos lembrar.

Todos temos esqueletos. Uns com mais ossos, outros já mais gastos e por isso com ossos mais fracos. Uns que nos atrapalham muito e por isso são considerados esqueletos adultos e outros que nem nos lembramos que existem e por isso são esqueletos infantis.

No meu caso, tenho um esqueleto de estimação. (Desculpem, mas ler isto que eu própria escrevi dá-me uma tremenda vontade de rir. Como se eu abrisse o armário e fosse mimar um esqueleto que tenho lá guardado. Surreal!!! Só mesmo eu para me lembrar desta imagem mental…).

Bem, mas voltando a assuntos mais sérios, tenho um esqueleto de estimação. Não, não é daqueles que mimo. É daqueles que não consigo deitar fora. Como aqueles objectos que estão a cair de podres, mas que nos trazem recordações tão boas que nós não nos conseguimos separar deles. Eu tenho um esqueleto assim. O meu esqueleto é uma pessoa, ou melhor, as recordações do que vivi e do que passei com essa pessoa.

É um esqueleto adulto, porque me atrapalha muito em muita coisa, porque me traz muitas recordações, boas e más, como tudo na vida. Porque tem uns ossos tão grandes que me conseguem prender em muitas decisões que tento tomar na vida. É um esqueleto adulto porque em muitas situações da vida não me larga e lembro-me muitas vezes que ele está lá guardado no meu armário.

Juro-vos que é um esqueleto que eu detesto. Que me apetece parti-lo e atirar as cinzas dos seus ossos à primeira lufada do vento Simum que aparecer. Atirar as cinzas desse esqueleto a esse vento quente dos desertos de África e da Arábia, que nos aquece por fora e por dentro. Que arrasta areia suficiente para que essas cinzas se misturem com os finos grãos de areia e tudo não passe de poeira que o vento arraste por todos os quilómetros que viaje.

Todos temos pelo menos um esqueleto de estimação no nosso armário. (Peço desculpa mais uma vez, mas não consigo deixar de me rir cada vez que escrevo esqueleto de estimação. Continua a ser uma imagem demasiado surreal…). Mas é verdade! Todos temos algo em que não gostamos de pensar e menos ainda de falar sobre isso. Mas não faz mal, é normal.

O meu esqueleto é muito pesado. Talvez por isso ainda não o consegui tirar do armário. Tenho andado a partir-lhe os ossos aos poucos. Já dei alguns a roer a alguns cães vadios e esfaimados que encontro na rua. Mas há ainda muitos que tenho lá guardados no armário da memória.

E são esses ossos todos que me têm impedido de viver. É a simples recordação desse esqueleto que me impede muitas vezes de me atirar de cabeça a muitas oportunidades que me aparecem na vida. Acho mesmo que esse esqueleto me tem impedido de viver e de ser feliz. É por isso mesmo que é um esqueleto adulto e pesado…

E apercebi-me de tudo isto hoje à tarde a caminho de casa. Eu sei que tudo o que escrevi é muito negro, e por isso mesmo é que foi ao vir para casa. Esteve uma tarde de chuva horrível e o céu estava negro. Condizia com a fuligem dos ossos do esqueleto que me lembrei…

Estava eu a meio de mais uma conversa com uma das almas inspiradoras deste blog, quando se tocou num assunto que me feriu interiormente. Bastou falar-se nesse esqueleto para toda eu me retrair e por logo a minha carapaça em acção.

Mas todos somos assim. A dita alma inspiradora do blog também tem um esqueleto no armário, não só da memória mas também do coração. (Alma inspiradora do blog, desculpa dizer isto, mas é verdade. E só dói porque reconheces a verdade das minhas palavras. Sei que ao escrevê-lo me arrisco a não ir ver os Toranja contigo e a perder uma incrível noite que poderia ser, mas tu conheces-me, sabes como eu sou… Eu não consigo evitar meter a pata na poça e deixar de escrever o que sinto e o que penso).

Mas não é o único. Eu também tenho um esqueleto, tal como vos disse, que também não está só no armário da memória. Está também no do coração e pior que tudo, no da alma. É por isso que é um esqueleto adulto e é por isso que é tão difícil carbonizá-lo e transformá-lo em cinzas.

É exactamente por isso que tento mais um exorcismo e escrevo sobre ele. Sobre um esqueleto adulto que transporto em três armários, tal é o seu tamanho. Um esqueleto adulto que ocupa a parte vital do meu ser. Um esqueleto … Que teimo em carbonizar…

 

 

Sinto-me:
A ouvir: James Blunt - You´re beautiful

Soprado por: Asa às 11:02
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